Vacinas são muito importantes. Graças a elas, conseguimos reduzir radicalmente as chances de nossos peludos queridos contraírem doenças potencialmente fatais, como as temíveis cinomose, parvovirose e hepatite infecciosa canina, além da raiva – uma zoonose letal. É, portanto, fundamental que seu cão seja vacinado.
O que talvez você – e muita gente no Brasil, incluindo veterinários – ainda não saiba, é que nem todos os cães precisam tomar todas as vacinas que existem (ETTINGER e FELDMAN, 2005; NELSON e COUTO, 2010). Que nem todas as vacinas precisam ser aplicadas anualmente (WOLF et al 2010). Que as vacinas foram classificadas por estudiosos em essenciais ou core (antirrábica, cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa canina e, possivelmente, para o Brasil, leishmaniose visceral canina), opcionais ou non-core (leptospirose, “tosse dos canis”, parainfluenza) e não-recomendadas (giardíase, dermatofitose, coronavirose e adenovirose tipo II) (TIZARD, 2009; ETTINGER e FELDMAN, 2005). Que vacinas virais vivas contra as doenças mais perigosas (cinomose, parvovirose e hepatite infecciosa canina – as essenciais) podem proteger os cães por 9 anos ou mais (DAY, HORZINEK e SCHULTZ, 2010). Que a recomendação para reforços vacinais anuais é arbitrária e está defasada cientificamente há pelo menos 10 anos. (Na verdade, até agora não encontramos nenhuma evidência científica recente independente, em nenhum lugar do mundo, que apóie reforços vacinais anuais para todas as vacinas.) Finalmente, que a vacinação é um procedimento que não é inócuo. Ela tem potencial de provocar reações adversas imediatas e tardias (MOORE, HOGENESCH, 2010; RASHID et al, 2009; DODDS, 2005).
De fato, inúmeros artigos científicos apontam uma associação entre o excesso de vacinas (que ainda é praticado no Brasil) e o desenvolvimento de inúmeros males crônicos que acometem aos montes os pets de hoje: processos alérgicos (DODDS, 2005), doenças auto-imunes (DODDS, 2005; DAY, 2004; MELLAMBY et al, 2004), tumores (VASCELLARI et al, 2003), poliartrite (KOHN et al, 2003), doença renal crônica (NEWMAN et al, 2002), epilepsia (MEYER, COLES e RICH, 2003) distúrbios comportamentais (JORDAN, 2010) e muitos outros (NICHOLS, MORRIS, BEALE, 2001; VITALE, GROSS, MAGRO, 1999).
É comum ouvirmos que essas informações não são válidas para a “nossa realidade brasileira”, porque “aqui a pressão de infecção é maior” devido a “muitos animais que jamais foram vacinados e que estão doentes e são contagiosos”. É verdade que a maioria de nossos cães e gatos não é vacinada, lamentavelmente. Mas, de acordo com muitos pesquisadores proeminentes, mesmo nos Estados Unidos – país tido como modelo em matéria de vacinação – apenas 50% dos cães recebem vacinas (DAY, HORZINEK, SCHULTZ, 2010). Basta estudar um pouquinho sobre células de memória para entendermos que, depois de uma série inicial de vacinas bem feita e um reforço (com produto idôneo e bem conservado, aplicado no animal sadio), os cães desenvolvem proteção contra as doenças virais citadas, por muitos e muitos anos (TIZARD, 2009; HORZNEK e THIRY, 2009). Tal como acontece com as vacinas que nós tomamos na infância e adolescência.
Proteção é proteção. Ao entrar em contato com animais doentes, as células de memória do cão devidamente vacinado imediatamente “fabricam” anticorpos que evitam essas doenças (TIZARD, 2010). Esse fenômeno fisiológico ocorre em qualquer lugar do mundo. As exceções a essas ‘regras’ são as doenças bacterianas (ex: Leptospirose) ou causadas por protozoários (ex: Leishmaniose). Infelizmente, vacinas contra essas doenças protegem os cães por apenas 6 meses a um ano, em média, e requerem portanto reforços freqüentes (WOLF, 2010). Mas essas vacinas podem ser aplicadas separadamente das múltiplas e nem todo animal precisa recebê-las. O ideal é que o protocolo vacinal passe a ser uma conduta realizada sob medida para cada paciente, tendo em vista sua raça, idade, local onde vive, estilo de vida e histórico de saúde. Ou seja, devem ser considerados os verdadeiros riscos do animal contrair as doenças contra as quais ele será vacinado, e também deve-se ponderar se os benefícios de cada vacina superam os riscos inerentes ao procedimento.
É muita informação para digerir de uma vez, eu sei. Mas esse é o caminho da Ciência. Ela caminha para frente, constantemente revendo e questionando práticas antes tidas como as mais seguras e eficientes. Não é nada fácil romper com paradigmas. Exige muito estudo, retorno à base, compreender um pouco de Imunologia. Além disso, vacinar de forma inteligente, estratégica, levando em conta o histórico e o estilo de vida do animal, dói no bolso de muita gente – não tenha dúvidas. Essa resistência que ainda encontramos no Brasil faz parte do processo de aceitação dessas novas informações – que aliás, há anos são tema de palestras de congressos e simpósios de prestígio internacional (vide as referências ao final do artigo).
Mas chegaremos lá, pouco a pouco.
Em resumo, vacinas são produtos importantíssimos. Assim como os medicamentos. O que tem sido questionado e revisto por pesquisadores é o abuso delas. Como tudo na vida, vacinas em excesso podem fazer mal. Se podemos proteger nossos melhores amigos com eficiência, usando menos vacinas e, consequentemente, expondo-os a um menor riscos de reações adversas, por que não fazê-lo?
Leia abaixo nossas considerações sobre quais vacinas podem ser aplicadas em cada fase da vida do cão, levando em conta o estilo de vida e outras características particulares de cada animal. Essas indicações são apenas sugestões. Para elaborar um protocolo seguro e eficiente para seu animal consulte o médico veterinário de sua confiança. Como essas informações são relativamente novas no Brasil, pode ser interessante imprimir uma cópia deste artigo e entregar a ele. Aliás, se pudéssemos lhe sugerir a leitura de um artigo científico bastante completo, de peso e muito recente, seria esse.
Cães
60 dias (2 meses):
- 1 dose de V2 (protege contra cinomose e parvovirose, as duas doenças mais importantes para essa fase e é a vacina com menor potencial de reações adversas).
- Ou 1 dose de V6 (protege contra cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa canina, parainfluenza, coronavirose e adevovirose tipo II – não contém leptospirose, a fração considerada a mais alergênica das vacinas e desnecessária para filhotinhos tão jovens). Duas empresas no Brasil fabricam a V6: essa e essa.
- Ou 1 dose de V8 (protege contra todas as doenças da V6 + leptospirose).
Observações:
– Não vacine filhotes desnutridos, intensamente parasitados por vermes intestinais, doentes ou com menos de 50 dias de vida. Trate-os e vacine quando estiverem bem.
– Em condições ideais, procure vacinar o filhote a partir dos 60 dias de vida, para minimizar riscos de reações adversas.
– Se possível, ao invés de levar o filhotinho à clínica para ser vacinado, peça ao veterinário que venha atendê-lo em domicílio. Isso reduz as chances de que ele se infecte no consultório.
– Se possível, evite aplicar a vacina V10 em um filhote tão novinho. Ele não tem condições de montar uma resposta imune adequada para tantos antígenos – as doenças mais importantes são a parvovirose e a cinomose – e a V10 tem maior potencial de provocar reações adversas imediatas ou tardias, devido principalmente à presença de quatro leptospiras.
– As vacinas mais seguras, em ordem de segurança, para a 1ª imunização, são: V2, V6 e V8.
– Mantenha o filhote dentro de casa e só permita que ele entre em contato com animais devidamente vacinados.